Ceará tem déficit de 6.336 leitos na rede pública de saúde

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A espera por uma enfermaria não demorou quase nada. Em compensação, Édio Sousa Brito, 45 anos, agora divide o leito, destinado a receber seis pacientes, com outros oito, no Instituto Doutor José Frota (IJF). O microempresário levou duas horas entre chegar ao hospital e ser operado, depois do acidente de moto que sofreu em Beberibe, a 83 km de Fortaleza. “A minha ‘sorte’, entre aspas, é que foi fratura exposta”, conta.

Para tentar barrar a superlotação, o Ministério da Saúde determinou o mínimo de 2,5 a 3 leitos para cada grupo de mil habitantes. Com 8,6 milhões de habitantes em 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Ceará possui 15.179 leitos de internação em hospitais públicos e filantrópicos. O índice para cada grupo de mil é de apenas 1,7 vaga. Para atender o mínimo preconizado pela pasta, o Estado precisaria criar 6.336 leitos, chegando a 21.515.

Fornecido pelo Ministério da Saúde, os números de leitos são do fim de 2012. Somando-se os particulares, o Estado possui 19.022. Apesar da defasagem de leitos, os números já representam melhoria. Em 2005, ainda segundo o Ministério da Saúde, o índice de leitos por mil habitantes no Ceará era de 1,49. O Estado tinha uma população de pouco mais de 8,09 milhões e um total de 12.116 leitos. Mesmo com o aumento de 20% dos leitos financiados pelo SUS ao longo de oito anos, o Ceará não conquistou o mínimo determinado.

Capital

Com população estimada, no ano passado, em pouco mais de 2,5 milhões de habitantes, a Capital possui 5.987 vagas, entre leitos municipais e estaduais. Deles, 4.133 são de gestão da Prefeitura. O índice para o total, então, é de 2,39 vagas por cada grupo de mil habitantes.

“As prefeituras (do Ceará) são habituadas a fazer políticas de saúde baseadas em ambulância. Fortaleza tem que atender o Ceará inteiro e aí parece que faltam leitos”, analisa o professor do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), José Jackson Coelho Sampaio. Doutor em saúde pública, José Jackson também é psiquiatra e reitor da Uece.

Ele defende que o problema em Fortaleza não é por carência de vagas. A questão está na má distribuição dos leitos no Estado, ao longo dos anos. O professor acrescenta que, antes da construção de novos hospitais da gestão do governador Cid Gomes, a última edificação data de mais de 20 anos atrás.

A falta de interiorização da rede contribuiu para a não expansão dos leitos. Marcelo Gurgel, professor da graduação em Medicina e do mestrado e doutorado em Saúde Pública da Uece, sustenta que o crescimento dos leitos não deve, necessariamente, acompanhar o populacional. “Se tiver uma atenção primária e secundária funcionando bem, você diminui os leitos de maior complexidade e evita a necessidade de aumento de leitos de UTI. Isso é o ideal”, diz.

No Hospital Geral de Fortaleza, a falta de leitos deixou o vendedor Carvalho Júnior, 35, irmão da vendedora Cinara Linhares de Carvalho, 35, esperar muito tempo por uma cirurgia para retirar uma fístula do cérebro.

ENTENDA A NOTÍCIA

Segundo especialistas, quantidade de leitos na rede pública não atendeu ao crescimento da demanda. Mesmo com aumento de 20% de vagas de internamento entre 2005 e 2012, Ceará ainda precisa criar novos leitos.

Saiba mais

Mudança no tratamento

A recomendação internacional décadas atrás era de quatro leitos para cada grupo de mil habitantes, de acordo com o professor do curso de Medicina da Uece, Marcelo Gurgel. Isso porque, de acordo com o pesquisador, uma série de enfermidades, antes tratadas com internamento, começou a não requerer mais o recolhimento hospitalar. “Parte da diminuição dos leitos por mil habitantes se deu pela mudança de como se tratar, por exemplo, uma tuberculose. Hoje, quem se interna muito tempo para tratar uma tuberculose? Apenas em casos mais complicados”, informa Marcelo Gurgel.